dilluns, 16 de febrer del 2015

fado (dois)


                                                                                                                                alguem susurrou:

se dice que fado viene de fatu, la palabra latina para destino
el destino de l@s portugueses es cantar fados
fado es aquello que es irremediable, lo que necesariamente va a suceder
la índole fatalista y plañidera de la canción de lisboa no puede ser otra, porque con o sin ganas de renovación: el fado siempre será fado
el resto, bien, el resto es invención de escribientes, engominados, temerosos de sangre, lágrimas y olor a vino tinto
lo que en su tiempo cantaron ciertos estudiantes de coimbra - y que algunos repiten, hasta la nausea, sin osadía, ni inventiva- no era fado sino balada, tristona y ridículamente tierna, chansonette de que no sabía muy bien que sería clavar, por pasión o inclinación, un cuchillo en las tripas de alguien y meter toda la rabia, todo el sufrimiento y la furia  en una sola cantiga

la amalia que tantos recuerdan no era fado auténtico,
pues cantaba desde lo alto, mirando hacia abajo, alzando el mentón, esto no era fado
quizá fuera más bien canto lírico
fado-fado era la severa, la desgraciada, o el marceneiro, a su  lefaltaba una miel calentita, quizá la herminia cuando estaba de chatos, quizá maría da visitaçâo,zé porfirio,ginginhas y otros macarras igualmente desconocidos por el excelentísimo público
el fado era así, y así continúa, lo que hacía el que se arrancaba a cantar cuando realmente quería arrancarse con una pistola
o el que quería descargar su tristeza sobre el hombro de otra persona

   
diz-se que fado vem de fatu, a palavra latina para destino. e que é fado dos portugueses cantar o fado. fado é assim aquilo que é fatal, o que necessariamente tem de acontecer. a índole plangente e fatalista da canção de lisboa não pode assim ser outra, porque, com ou sem faina de renovação, fado será sempre fado. o resto, bem, o resto é invenção de escriturários, engomadinhos, temerosos de sangue, lágrimas e cheiro a vinho tinto. o que cantaram em tempos certos estudantes de coimbra – e que uns quantos repetem, até à náusea, sem ousadia ou inventiva – não era fado mas balada, tristonha e lamecha, chansonette de quem não sabia muito bem que coisa seria espetar, apenas por paixão ou desfastio, uma faca nas tripas de alguém. e meter toda a raiva, todo o sofrimento e danação, numa só cantiga.

a amália que tantos lembram não era bem fado, pois cantava com uma elevação, olhar altivo e queixo levantado que não eram próprios do fado. talvez fosse mais canto lírico. fado-fado era a severa, a desgraçada, ou o marceneiro, com a voz a precisar de uma colher de mel coado, talvez a hermínia quando estava com os copos, talvez maria da visitação, zé porfírio, ginginhas, e outros malandros igualmente desconhecidos do excelentíssimo público. fado era assim, e assim continua, o que fazia quem puxava pela voz quando tinha ganas de puxar da pistola. ou quem só queria carpir a infelicidade sobre o ombro de alguém.

divendres, 13 de febrer del 2015

pessoa, nove poemas

1 – Poema em linha reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de HOTEL,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

2 – O guardador de rebanhos
Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
3 – Tabacaria
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
4 – Ode marítima
Sozinho, no cais deserto, a esta manhã de Verão,
Olho pró lado da barra, olho pró Indefinido,
Olho e contenta-me ver,
Pequeno, negro e claro, um paquete entrando.
Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira.
Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo.
Vem entrando, e a manhã entra com ele, e no rio,
Aqui, acolá, acorda a vida marítima,
Erguem-se velas, avançam rebocadores,
Surgem barcos pequenos detrás dos navios que estão no porto.
Há uma vaga brisa.
Mas a minh’alma está com o que vejo menos.
Com o paquete que entra,
Porque ele está com a Distância, com a Manhã,
Com o sentido marítimo desta Hora,
Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea,
Como um começar a enjoar, mas no espírito.
Olho de longe o paquete, com uma grande independência de alma,
E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.
Os paquetes que entram de manhã na barra
Trazem aos meus olhos consigo
O mistério alegre e triste de quem chega e parte.
Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos
Doutro modo da mesma humanidade noutros pontos.
Todo o atracar, todo o largar de navio,
É — sinto-o em mim como o meu sangue —
Inconscientemente simbólico, terrivelmente
Ameaçador de significações metafísicas
Que perturbam em mim quem eu fui…
Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
E quando o navio larga do cais
E se repara de repente que se abriu um espaço
Entre o cais e o navio,
Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente,
Uma névoa de sentimentos de tristeza
Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas
Como a primeira janela onde a madrugada bate,
E me envolve com uma recordação duma outra pessoa
Que fosse misteriosamente minha.

5 – Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

6 – Presságio
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

7 – Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: “Fui eu?”
Deus sabe, porque o escreveu.

8 – Todas as cartas de amor…
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
9 – Autopsicografia
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

dimarts, 25 de juny del 2013

a borboleta tá de festas
(sardinha alfacinha, desenho nádia silva mendoça)

dimarts, 28 de febrer del 2012

divendres, 24 de febrer del 2012

Mundança

Antes:

Depois:

A industria discográfica mudou à Carminho.
 Mais elegante, mais sofisticada.
Mas bem menos próxima.
Graças a Zeus, a voz fica.

dimarts, 21 de febrer del 2012

Martinho y Pessoa

 Maritornes escribiu:

"Si te es imposible vivir solo, naciste esclavo". (Fernando Pessoa)

Carlos Taibo, Como si no pisase el suelo, Madrid, Trotta, 2011.



No me extraña nada (e incluso me gusta) que un profesor de Ciencia Política haya publicado unos ensayos sobre Pessoa. Deberían tomar ejemplo cardiólogos, ingenieros de minas, jueces y diseñadores gráficos (por mencionar lo primero que se me viene a la cabeza), para ver si los filólogos nos desintoxicamos y recordamos que lo nuestro también debería ser serio, y científico. Y que las afirmaciones absolutamente inventadas, puestas al servicio de nuestros prejuicios, creencias y gustos personales están para el momento de tomar copas con los amigos; si las publicamos, nos deberían poner una multa por fraude.

El caso es que con Pessoa pasa un poco como con Lorca, poetas entre los que encuentro enormes afinidades en cuanto al trato y manipulación que les ha dado la crítica. Ambos sin hijos, con familias ligeramente lejanas y llenas de esa figura fascinante llamada “sobrino-nieto”, que han vivido más de 40 años obsesionadas con dos cosas: lucrarse y no permitir que la imagen de su tío abuelo, hermano, hermanastro o primo se manchara con ninguna sombra. “Sombras”, para estas familias, a lo largo de estos años han sido: el alcoholismo, la homosexualidad, la carencia de recursos económicos, etc.

Respecto a este último aspecto (las dificultades económicas), apunta Carlos Taibo una obviedad que me ha encantado. Disfruto enormemente de la valentía cuando se escribe. La vergüenza familiar no proviene de considerar innoble la pobreza; proviene del hecho de que si dicha pobreza realmente se produjo, todas aquellas personas que fueron incapaces de prestarle ayuda material, quedan, para la posteridad, como unos miserables.

Y a fin de cuentas, nadie dice que lo fueran. Pero ellos ya lo están pensando; y las justificaciones no pedidas, ya sabemos qué son en realidad.

Estos ensayos pretenden trazar una semblanza personal (no literaria) de una persona que se escondió siempre. Y más aún, aspiran (con cierta pretenciosidad que no deja de caerme simpática) a acercarse honestamente al poeta; quieren buscar la verdad (eso que no existe) y refutar las falsas y canónicas afirmaciones que se han consagrado sobre la vida de Fernando Pessoa. A mí me hace gracia que de verdad uno crea poder llegar a conclusiones sin datos. Como si el neurólogo (mi nueva obsesión con la medicina le será familiar y, espero, disculpable a mis allegados) pretendiera conocer la cura del Alzheimer sin saber qué son las neuronas. De Fernando Pessoa no sabemos nada, excepto cosas increíbles y fascinantes en su rareza. Nada que nos permita comprenderlo. Si quienes lo conocieron no lo hicieron (comprenderlo, digo), ¿en qué demonios se están gastando el dinero las editoriales con estas tonterías?

Una cosa sí que ha conseguido Taibo. Y se debe agradecer, reconocer, valorar. Quizás se queda lejos de sus pretensiones (o quizás no); pero pienso que es un logro, y con los logros que alcancemos en la vida hemos de conformarnos. Taibo consigue enmendar la plana a todos los absurdos biógrafos que ha tenido Pessoa. Y no ofrecer ninguna respuesta. Ninguna. Pero reconoce simplemente esto: “La respuesta es imposible. Lo desconocemos”. Es decir: “No pienso inventarme nada y enguarrar más páginas de mala praxis filológica o histórica”.

la terraza del Martinho
Y es que, de lo que se ha dicho sobre Pessoa, la mitad es mentira, y la otra mitad no existe. Cierto que esos sobrino-nietos y hermanastros que en los años 80 del siglo XX padecían ya demencias seniles y abrían sus puertas a los periodistas porque la pensión no les alcanzaba o porque la soledad hacía estragos en ellos, mintieron, maquillaron o simplemente chochearon respecto a unos hechos ya muy lejanos en el tiempo. Por otra parte, esos periodistas, biógrafos, filólogos, curiosos, mamarrachos... se habían enamorado de una persona sobre la que habían proyectado sus propias ilusiones y valores (como cuando conoces a alguien en un chat por Internet), e hicieron lo que quisieron con aquella información. Dibujaron lo que soñaban.


Me he enfrentado a Fernando después de mucho tiempo. Después de haber leído mucho sobre él. Tanto, que lo he olvidado. Y de repente me veo en él tan cercana como lejana. Mimetizada en sus cigarrillos y su mirada perdida, y sin embargo, al mismo tiempo, encumbrada en esta atalaya del siglo XXI desde la que no entiendo su falta de pulsión sexual, ni su despreocupación por el bienestar económico. Me hago mayor, tal vez, y pienso que el dinero sí da la felicidad. Lo busco y lo procuro y, aunque es verdad que nunca sacrificaría cosas verdaderamente importantes por dinero, aspiro a tenerlo. Mentiría si dijese lo contrario. Sé que me moriré sin él, y trabajando. Pero hasta el último momento pensaré en cómo ganar más dinero.

Pessoa necesitaba escribir, y para ello no podía dedicar demasiadas horas al trabajo. Claro, a mí me pasa igual; lo entiendo. Así que él decidió ser traductor de cartas comerciales, y no asumir más encargos de los que le iban bien para tener tiempo libre. Rechazó un puesto en la Universidad de Coimbra (me hace gracia, precisamente en la Universidad de Coimbra, entre otras, por una plaza de profesora titular, me plantearía seriamente el asesinato de quien se me pusiera por delante). Así que tuvo apuros económicos. No fue pobre. Le pasaba como a mí, que a veces no le llegaba el sueldo a fin de mes, nada más, y no era de esa especie extraña y peligrosa que es capaz de beber menos vino o fumar menos cigarros para que le alcance el dinero. Yo eso no sé hacerlo, y él tampoco. A mí quien sabe hacerlo me da miedo.

Pero yo hubiera aceptado más traducciones, y habría renunciado a trabajar solo 5 o 6 horas. Es lo que hago ahora. Ser cobarde.

Los camareros del Martinho
Eso me distancia de Pessoa. Pienso que fue tremendamente valiente y coherente. Como me distancia también esta sexualidad sana y activa (quiero decir con ello normal) que por fortuna padezco. Durante muchos años se ha querido insinuar que Pessoa era homosexual, por la sencilla incapacidad que todos tenemos de asumir que se trataba de un hombre sin vida sexual. Fernando Pessoa no follaba (o lo hizo poquísimo). No quiero escribir más sobre la sexualidad de Fernando Pessoa, que siempre ocupa un capítulo destacado en los manuales y biografías. Ofelia Queirós sabe la verdad. Alguna otra mujer anónima quizás también sepa la verdad. Nosotros no sabemos nada. Pero yo sí sé, al menos, que quienes han querido ver en Pessoa a un homosexual reprimido son más tontos que Abundio. Si así fuera, no habría parado de follar. Y salta a la vista que no fue así.

Pessoa fue un hombre sin vida íntima, quizás porque tenía miedo de ella. Y en cuanto a Ofelia, basta hacer un ejercicio de sana lectura de las cartas que se escribió con ella (como ha hecho Taibo) para dejar de marear la perdiz y de aventurar hipótesis absurdas: simplemente intentó amarla y no pudo o quiso. Es extraño. Es desconcertante. Y de nuevo, desde mi atalaya del siglo XXI, veo a un Pessoa lejano, por quien no puedo sentir comprensión alguna. Quizá es de las pocas personas que han pasado por este mundo siendo más espíritu que carne. Nada más sé. Ni sabemos. El psicoanálisis se me queda corto (por no decir que me da risa).

Las almejas
Pero en el resto... Yo camino de su mano, y entiendo el valor que le daba a las cosas. Yo sí puedo comprender que, teniendo unos cigarros de una marca especial, mirando el Tajo al caer de la tarde desde la altura y la perspectiva que da la Alfama, se sintiera feliz. Puedo entender que empleara la mayor parte de su sueldo en ello. Que bebiera café, vino y aguardiente. Que se encontrara a gusto en los cafés, sobre todo en Martinho da Arcada, donde siempre que he podido he ido a comer almejas. Y sola, a ser posible. Porque a mí me gusta ir sola a Martinho da Arcada, qué le vamos a hacer. Los camareros son de ese tipo que existe en las zonas más céntricas de Madrid (plaza Mayor, sobre todo). Muy profesionales; absolutamente alienados, derrengados, destrozados por años y años y horas de trabajo. Muy simpáticos, muy educados. De mediana edad ya todos (no hay ningún chaval con huevos, ni con la educación suficientes para currar en esos sitios). Muchas veces pienso en llevar allí a alguien especial. Pero luego me doy cuenta de que esa persona tal vez espere que el lugar le impresione, o que tenga algo sumamente especial para ella. Y no: solo lo tiene para mí. Es muy probable que se decepcione. No puedo explicar por qué para mí es importante comer almejas en Martinho mientras miro la praça do Comerçio, e intuyo, al fondo, el río. Ni espero que los demás sientan lo mismo. Es algo muy personal.

La mesa de Pessoa, en el interior
A veces, los lugares y los momentos se quedan congelados dentro de una, y siempre significan lo mismo; y siempre esperamos que estén ahí para volver. A veces te has encontrado en el punto de la muerte, o en ese menos dramático en el que simplemente has dejado de entender cosas, y sientes frío. Y resulta que, sin pensarlo, te fuiste a comer algo. Y ese rincón, ese plato, y el recuerdo del viento suave que te explicaba que todo iría bien, te calman. Te recuerdan que se sobrevive. Que la vida vale la pena. Después se encienden las luces, porque ha anochecido. Y enciendes un cigarro que fumas con consciencia y deleite (no por inercia, como algunas veces hacemos los fumadores). Y das las gracias a Dios por ser hedonista. Porque total, para lo que vas a estar aquí, mejor saber disfrutarlo.

Más cercana y más lejana que nunca de Pessoa. Estos ensayos son posiblemente de lo mejor que se ha escrito sobre él; aunque todo sea más cierto, y por ello más doloroso.